Fale connosco
English

Modernização da Indústria: passo a passo rumo à Digitalização e à Indústria 4.0

21 janeiro 2021
Artigo de Luís Pina, investigador coordenador dedicado à Indústria 4.0 no INEGI


Em finais do século XVIII James Watt adicionou um depósito de condensação ao conceito existente da máquina a vapor, aumentando consideravelmente a sua potência e eficiência. Esta simples, mas crítica, alteração aumentou a velocidade de funcionamento das máquinas a vapor e permitiu a sua utilização num infindável leque de aplicações. Iniciou-se assim a grande transformação industrial que continua nos dias de hoje. 

Mais de 200 anos depois, atravessamos a 4º revolução industrial, apelidada de "Indústria 4.0", desta vez marcada pela conectividade entre todos os equipamentos e agentes produtivos, permitindo a transmissão e processamento de informação através de todas as cadeias de valor. 

Este processo de transformação de uma fábrica numa entidade ciber-física, em que todos os equipamentos, processos e produtos existem no mundo real, mas também têm a sua contraparte no mundo digital, e em que a fronteira que separa estes dois mundos é pouco precisa e vai-se esbatendo com a consolidação desta transformação, é um processo desafiante e proveitoso, em que os benefícios não são facilmente quantificáveis.

É, no entanto, um caminho incontornável, que todas as empresas em laboração nas próximas décadas terão certamente percorrido. 

O caminho da transformação digital 

Desde que o conceito de Indústria 4.0 foi formalizado, já se desenvolveu e testou a metodologia que permite implementar a desejada transformação digital. Embora a transformação digital seja um caminho sem fim à vista, os seguintes passos permitem que se avance sustentadamente na direção certa e sem percalços que possam colocar em risco esta transformação ou a sustentabilidade das empresas. Uma inteligente aplicação desta metodologia permite diferir os custos dos investimentos necessários e antecipar os seus benefícios. 

0 – Convicção na transformação 

O processo de digitalização, de transformação para uma fábrica inteligente, é longo e requer investimento - em equipamentos, recursos humanos e formação. Portanto, a disponibilidade para tais investimentos é uma condição necessária para iniciar o processo, que tem que ser assumida pela gestão de topo. A dimensão e calendarização destes investimentos será sempre ajustada aos interesses da empresa e expressa na estratégia de modernização e no Roadmap Tecnológico. 

1 – Índice de maturidade i4.0 

Antes de avançar é necessário saber onde estamos. Portanto, é necessário avaliar o estado atual da empresa, nos pilares de recursos físicos, sistemas IT, cultura e estrutura organizacional. Esta informação irá indicar as forças e as fraquezas da empresa para a digitalização e, quais oportunidades que irão gerar os benefícios a curto-prazo. 

2 – Roadmap Tecnológico 

Tendo em consideração os interesses da empresa e os seus planos estratégicos, é estabelecido o Roadmap Tecnológico onde se define a arquitetura da futura fábrica inteligente, a cadência de implementação das tecnologias que a tornarão possível, e respetiva calendarização. 

3 – Conectividade 

O primeiro passo na implementação das tecnologias da Indústria 4.0 é a ligação dos equipamentos produtivos e dos postos de trabalho em rede. Sensores, atuadores, sistemas de identificação e etiquetagem, ecrãs táteis e outras interfaces homem-máquina, são alguns dos equipamentos que permitem gerar e recolher toda a informação pertinente sobre os processos de fabrico.  

4 – Visibilidade 

Nesta etapa, toda a informação recolhida é disponibilizada para visualização, permitindo ter uma visão detalhada de todos os processos, incluindo a rastreabilidade das peças produzidas, e visualização dos fluxos de energia, materiais, pessoas e informação. 

5 – Transparência 

O processamento de toda a informação recolhida permite ver para além do imediato, possibilita a definição de KPIs, identificação de padrões, geração de alertas, visualização de estatísticas de alto nível e, aferir o desempenho de cada processo e de toda a fábrica. 

6 – Previsão 

Com base na informação processada é possível gerar modelos de previsão, para prever o desempenho dos processos, o estado dos equipamentos, a antecipação de falhas, e promover a utilização de técnicas de manutenção proativa e preditiva. É também possível simular com precisão cenários de alteração das condições de produção e antever o impacto de eventos específicos. 

7 – Otimização e Adaptabilidade 

A utilização de ferramentas de inteligência artificial transforma a fábrica numa fábrica inteligente, capaz de otimizar os seus processos, reagir a imprevistos e adaptar-se a alterações na sua envolvente. 

8 – Interoperabilidade 

Finalmente, a interoperabilidade, que é um conceito basilar na Indústria 4.0. Estando todos os agentes das cadeias de valor conectados, e com acesso a toda a informação de operação, poderão colaborar de forma integrada, como se representassem apenas uma entidade. Esta interoperabilidade automática entre agentes, dentro e fora da fábrica, incluindo clientes e fornecedores, é a mudança radical de paradigma que a esta 4ª revolução industrial vem implementar. 


A Indústria 4.0 assenta numa proposta de modernização do tecido industrial, com o objetivo de digitalizar toda a operação das empresas e, como ficou demonstrado, é uma revolução no funcionamento das empresas. É, sem dúvida, a forma mais competitiva de se conseguir estar ativo num mercado cada vez mais exigente, que impõe tempos de resposta diminutos, produtos e serviços personalizados e de qualidade assegurada. Estamos perante uma necessidade imperiosa de embarcar nesta revolução, com o risco de ficarmos para trás. 



Uma versão deste artigo foi originalmente publicado na edição de julho/agosto de 2020 da Revista Técnica de Cerâmica e Vidro.  
Política de Cookies

Este site utiliza Cookies. Ao navegar, está a consentir o seu uso.   Saiba mais

Compreendi